Música Sacra na Liturgia Romana

“Se queres saber o que cremos, vem ouvir o que cantamos”, diz santo
Agostinho. De fato, a música sacra sempre foi um dos elementos mais importantes da
liturgia católica. Santo Agostinho, São Jerônimo, São Gregório Magno, São Tomás de
Aquino, São Pio X, São João Paulo II e diversos outros santos da Igreja tratam da
música sacra e ressaltam sua máxima relevância. Os pontífices das últimas décadas
vêm dedicando documentos à música e é, portanto, inegável que a música sacra tem
um papel fundamental na vivência da fé católica e que deve ser devidamente

valorizada da maneira como pede a Santa Igreja por meios de seus documentos.


Em sua carta encíclica de 1.749 [Annus qui hunc], o papa Bento XIV alertava os
bispos dos Estados Pontifícios sobre a situação das igrejas, da liturgia e da música,
exortando para que se adequassem ao Jubileu que haveria no ano seguinte para não
escandalizar os peregrinos que iriam à Roma de todos os cantos da Terra. Sobre a
música sacra de então, ele lamentou o uso de estilos musicais profanos e teatrais,
sugerindo o resgate do cantochão em todas as igrejas, desde as ínfimas paróquias até
as catedrais e santuários.


Do mesmo modo, o papa São Pio X escreveu em 1.903 seu célebre Motu Próprio
“Tra le Sollecitudini”, a constatar na música um problema afim, todavia indicando a

mesma solução: o resgate do canto gregoriano. Tal proposta foi repetida por seus
sucessores Pio XI, Pio XII, pela Sagrada Congregação dos Ritos por duas vezes e,
inclusive, pelo Concílio Vaticano II, que, em sua constituição Sacrosanctum
Concilium, reafirma o Gregoriano como o canto oficial da liturgia latina e coloca-o
como modelo para todos os demais estilos de cantos sacros.
Em 2.003 o papa São João Paulo II voltou a tratar do assunto em seu
Quirógrafo, resgatando aquilo que São Pio X escrevera 100 anos antes. E podemos
citar algumas colocações acerca do estilo musical e dos instrumentos de modo a
demonstrar que a vontade da Igreja Católica permanece a mesma. Ei-las:

 

 

 

 

 

 


1. Sobre o canto:
 

- Estas qualidades se encontram em grau sumo no canto gregoriano, que é
por consequência o canto próprio da Igreja Romana, o único que ela
herdou dos antigos Padres, que conservou cuidadosamente no decurso
dos séculos em seus códigos litúrgicos e que, como seu, propõe
diretamente aos fiéis, o qual estudos recentíssimos restituíram à sua
integridade e pureza. (São Pio X);

- Para que os fiéis participem mais ativamente do culto divino, restitua-se
o canto gregoriano ao uso do povo, naquilo que cabe ao povo cantar. Com
efeito, é sumamente necessário que os fiéis participem das cerimônias
sagradas, não como espectadores estranhos ou mudos, mas
perfeitamente penetrados da beleza da Liturgia. (Pio XI);


- [...] A essa santidade se presta sobretudo o canto gregoriano, que desde
tantos séculos se usa na Igreja, a ponto de se poder dizê-lo patrimônio
seu. Pela íntima aderência das melodias às palavras do texto sagrado,
esse canto não só quadra a este plenamente, mas parece quase
interpretar-lhe a força e a eficácia, instilando doçura na alma de quem o
escuta. (Pio XII);


- A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto
gregoriano; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de
circunstâncias, o primeiro lugar. (Sacrosanctum Concilium);

 

- Entre as expressões musicais que mais correspondem à qualidade
requerida pela noção de música sacra, particularmente a litúrgica, o
canto gregoriano ocupa um lugar particular. O Concílio Vaticano II
reconhece-o como "canto próprio da liturgia romana" à qual é preciso
reservar, na igualdade das condições. (São João Paulo II);

 

- Em igualdade de circunstâncias, dê-se a primazia ao canto gregoriano,
como canto próprio da Liturgia romana. De modo nenhum se devem
excluir outros gêneros de música sacra, principalmente a polifonia, desde
que correspondam ao espírito da ação litúrgica e favoreçam a
participação de todos os fiéis. (Instrução Geral do Missal Romano).

 

2. Sobre os instrumentos:
 

- Posto que a música própria da Igreja é a música meramente vocal,
contudo também se permite a música com acompanhamento de órgão
[...] Como o canto tem de ouvir-se sempre, o órgão e os instrumentos
devem simplesmente sustentá-lo, e nunca encobri-lo. (São Pio X);

 

- Existe, com efeito, um instrumento musical próprio da Igreja, herdado
dos antepassados, chamado órgão. Por sua admirável grandeza e
majestade, foi julgado digno de se unir aos ritos litúrgicos, quer
acompanhando o canto, quer, calado o coro nos momentos prescritos,
emitindo suavíssimas harmonias. (Pio XI);

 

- Devem essas normas aplicar-se, outrossim, ao uso do órgão e dos outros
instrumentos musicais. Entre os instrumentos a que é aberta a porta do
templo vem, de bom direito, em primeiro lugar o órgão, por ser
particularmente adequado aos cânticos sacros e aos sagrados ritos, por
conferir às cerimônias da Igreja notável esplendor e singular
magnificência, por comover a alma dos fiéis com a gravidade e doçura do
seu som, por encher a mente de gozo quase celeste, e por elevar
fortemente à Deus e às coisas celestes. (Pio XII)

 

- Tenha-se em grande apreço na Igreja latina o órgão de tubos,
instrumento musical tradicional e cujo som é capaz de dar às cerimônias
do culto um esplendor extraordinário e elevar poderosamente o espírito
para Deus. (Sacrosanctum Concilium);

 

- Ainda no plano prático, o Motu próprio do qual se celebra o centenário,
aborda também a questão dos instrumentos musicais a serem utilizados
na Liturgia latina. Dentre eles, reconhece sem hesitação a prevalência do
órgão de tubos, sobre cujo uso estabelece normas oportunas. (São João
Paulo II);

 

- Desde sempre e com boa razão, o órgão é classificado como o rei dos
instrumentos musicais, porque retoma todos os sons da criação e como
há pouco foi dito dá ressonância à plenitude dos sentimentos humanos,
dá alegria à tristeza, do louvor à lamentação. [...] A grande variedade dos
timbres do órgão, do piano até ao fortíssimo arrebatador, faz dele um

instrumento superior a todos os outros. Ele é capaz de dar ressonância a
todos os aspectos da existência humana. De qualquer modo, as múltiplas
possibilidades do órgão recordam-nos a imensidade e a magnificência de
Deus. (Bento XVI)

 

 

Nota-se, pois, cristalinamente que o Magistério da Igreja mantém-se firme
quanto ao estilo do canto litúrgico (valorizar o gregoriano, a polifonia e demais estilos
que se aproximem destes), aos instrumentos os quais devem ser utilizados (o órgão
como instrumento oficial, permitindo-se outros instrumentos desde que estejam
adequados ao espírito litúrgico) e outros aspectos que são facilmente encontrados nos
documentos dos supracitados autores.

© 2018 - Movimento Cecilianista do Brasil.

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